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São seis décadas dedicadas ao cultivo de fibras vegetais na Amazônia. Aos 73 anos, Francisco de Assis Baxote sustentou uma família de dez filhos plantando juta e malva às margens do Rio Solimões, em Manacapuru, em plena floresta Amazônia, a 82 km de Manaus, capital do Amazonas. Seu Francisco não sabe, mas seu trabalho é decisivo para uma das principais atividades da economia capixaba.
Em suas mãos, no Norte do país, começa um ciclo produtivo que passa pelo Porto de Vitória e desemboca em mercados do mundo inteiro. As mudas de juta e de malva plantadas na propriedade de Seu Francisco e nas de outras 15 mil famílias da Amazônia são a matéria-prima para sacas que embalam o café.
O processo, acompanhado de perto pela redação multimídia da Rede Gazeta durante cinco dias, tem início ainda em Manacapuru. Cada agricultor planta as sementes às margens do rio e espera até que a juta atinja tamanho suficiente para ser cortada.
Depois, as plantas são levadas para dentro do rio e a fibra é retirada do caule e posta para secar. Em seguida, segue em fardos para a filial da Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), onde é prensada.
A partir daí, todo o resto do processo é desconhecido para Francisco de Assis, que planta juta há 60 anos e ainda não viu o produto final que ajuda a fazer. "Eu planto, vendo a fibra, mas não sei o que dá depois. Ouvi dizer que vira estopa e telhado de casa. É verdade?", pergunta, curioso. Indústria
Os fardos seguem de balsa de Manaus até o Pará, onde fica a fábrica de juta da CTC. Ainda na fábrica da CTC os fios são tecidos, costurados e pintados com o selo Cafés do Brasil.
As sacas de café vendidas para o Espírito Santo vêm em caminhões com destino às exportadoras do produto. Dos portos capixabas, o café embalado nas sacas de juta leva o nome do Brasil para o Oriente Médio e a Ásia, entre outros.
Enquanto isso, Seu Francisco de Assis continua semeando a terra, agora com a ajuda dos netos. Com o auxílio de uma bengala, ele fiscaliza todas as etapas do cultivo, safra após safra, à beira do Solimões, em Manacapuru.
Como funciona o comércio da fibra
Para que a população ribeirinha tenha condições de permanecer nas terras e se sustentar, boa parte das famílias adota o cultivo de juta e de malva, que é garantia de comércio com as empresas da região.
O valor atual do quilo de fibra bruta, estabelecido pelo Governo do Amazonas, é de R$ 1,20. Mas o preço praticado pelas empresas é de R$ 1,50 por quilo, para fidelizar fornecedores e incentivar o aumento da produção.
Como os produtores não têm condições de pagar pelas sementes, elas são repassadas pela própria empresa. Em troca, o agricultor tem o compromisso de vender de volta à indústria a fibra produzida com essas sementes.
Para as empresas que fabricam produtos derivados de fibras vegetais, o custo do quilo é R$ 1,80, contando com o transporte até a fábrica. No mercado do café, cada saco pronto, com o frete incluso, custa R$ 3,80.
Segundo o diretor comercial da Companhia Têxtil de Castanhal (CTC), Ilton Sagioro, somente o mercado interno - principalmente o setor de café - já consome toda a produção nacional de fibra. O resto é importado de acordo com a necessidade.
"Não temos mais produto hoje. Precisamos importar fibra de Bangladesh. E aí entram todos os custos de importação que, querendo ou não, são repassados para os nossos clientes. Esse é o nosso maior desafio", alertou.
Produção e utilização
A produção anual de juta é de 12 mil toneladas. Desse total, 10 mil toneladas são utilizadas no mercado interno. De toda a juta produzida, 50% dos fios viram sacos de café (1 milhão e 200 mil sacos por mês), 27% sacos de batata e 6% se dividem entre sacos menores de amendoim, cacau, castanha, fumo e minério.
O restante é utilizado no setor da construção civil, decoração e artesanatos como telas, bolsas, tecelagem e tapetes.
"Eu planto e vendo a fibra, mas não sei o que dá depois. Ouvi dizer que vira estopa e telhado de casa. É verdade?"
"Antigamente o quilo da fibra pagava o de açúcar. Agora não dá mais. Se a gente for atrás de preço, a gente não trabalha"
Francisco de Assis Baxote , 73 anos, agricultor de Manacapuru, na Amazônia.
Cultura que não agride o ambiente
A escolha por embalagens feitas de juta para produtos de exportação como o café e a batata, além de conservar e permitir a "respiração" dos produtos dentro da embalagem, é também uma forma de evitar ao máximo agredir o meio ambiente. Todo o processo de cultivo da matéria-prima, nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, é feito de forma manual e sem a utilização de máquinas e fertilizantes.
A cultura da juta é sustentável e se renova a cada ano, tornando desnecessárias as queimadas e o desmatamento. Já os nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento da planta vêm do próprio húmus do rio.
Como os terrenos às margens dos rios, onde a juta é plantada, passam seis meses alagados, é uma cultura "limpa", como explica o secretário executivo do Instituto de Fibras da Amazônia (Ifibram), Arlindo Oliveira Leão.
"A grande vantagem do plantio na várzea é esse. É um ecossistema que não tem problema de degradação. A adubação é natural nos períodos de enchente. O agricultor só planta e colhe".
Sacolas
Com a criação do Ifibram, em 1974, cerca de 30 empresas trabalhavam com fios, tecidos e sacos feitos de juta. Na época, a produção de fibras chegava a 66 mil toneladas ao ano. Em 1989, com a chegada dos sacos de polipropileno (plástico) no mercado, a produção de juta teve uma redução drástica para 23 mil toneladas. Muitas empresas fecharam e a produção caiu ainda mais. Em 1996, foram pouco mais de seis mil toneladas de fibra.
Hoje, a produção varia entre 10 e 15 mil toneladas por safra, e conta com a complementação de matéria-prima vinda de Bangladesh.
O maior desafio do mercado de fibras vegetais é recuperar o espaço perdido com a chegada dos sacos de plástico. A aposta do setor é investir em sacolas ecológicas, em substituição aos materiais que agridem o ambiente.
Curiosidades na produção
Sacas de café. São conhecidas como sacas de juta. Mas, na verdade, 90% da matéria-prima é a malva, um produto bastante parecido com a juta.
Semelhança. Tanto a juta quanto a malva são plantadas sem separação. Na indústria, as duas fibras também são processadas como se fossem uma só.
Benefício. A preferência dos exportadores de café pela juta é explicada, principalmente, pela trama mais flexível e espaçosa do tecido, deixando o café ?respirar? e se acomodar dentro da embalagem.
Bonecas. Pequenas quantidades de juta, ainda bruta, que são separadas por tamanho, ainda na fábrica. São chamadas assim por se parecerem com cabelos de boneca.
Óleo. Até oito anos atrás, a fibra que chegava à fábrica de fios era molhada com óleo combustível, que deixava os produtos com cheiro ruim. Agora é utilizado o óleo de palma.
Juta tem espaço garantido no Espírito Santo
Somente nos dois primeiros meses de 2010, o Espírito Santo exportou 636.381 sacas de café. Desse número, aproximadamente 95% do produto foi para o exterior em sacos feitos de juta. Em 2009, 4.820.190 sacas de café, com capacidade para 60 quilos, deixaram o Espírito Santo com destino a outros países, de acordo com o Centro de Comércio do Café.
Boa parte do café capixaba que é exportado tem origem na Companhia Agrária de São Gabriel da Palha (Cooabriel). O vice-presidente da cooperativa, José Colombi Filho, informou que são comprados cerca de 300 mil sacos novos de juta por safra.
"A cooperativa usa esses sacos para armazenar café e também fornece sacos para os agricultores associados. Assim, há uma padronização. O café chega na mesma embalagem e no mesmo peso. Já é meio caminho andado", garante.
Daqui a dois meses começa a chegar café da safra de 2010 na Cooabriel. Para este ano, a expectativa é que sejam compradas 400 mil sacas para embalar o café.
A Gazeta
Leonardo Soares
lgsoares@redegazeta.com.br
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